Judas Priest pertence ao grupo de bandas imortalizadas por discos antológicos. Não faltam exemplos na discografia do quarteto britânico. Para ilustrar o fato, escolhi o duas vezes platinado Screaming For Vengeance, de 1982.
No começo da década de 80, Dave Holland aparecia como o sétimo baterista a tocar no Priest, mas a base criativa da banda continuava sendo o trio Halford/Tipton/Downing, que provou estar bem sincronizada à época. Um ponto interessante da obra é a mescla de elementos do Hard Rock com as raízes do British Heavy Metal.
Na contracapa do encarte, uma frase dava a tônica do álbum. Era ela: “From an unknown land and through distant skies came a winged warrior. Nothing remained sacred, no one was safe from the Hellion as it uttered its battle cry... Screaming for Vengeance.”
A primeira faixa é The Hellion, uma espécie de intro, um prelúdio para anunciar o que viria a seguir: Electric Eye. A música é uma alusão ao sistema/satélite onisciente do livro ‘1984’, de George Orwell. Os riffs dessa música são a definição exata do British Heavy Metal: veloz, agressivo e dominador. A harmonia em si segue um padrão do estilo, na tonalidade de E (Mi) menor e o solo, executado por Glenn Tipton, rasga os ouvidos e implora por um air guitar. Os efeitos na voz de Rob Halford dão uma ambiência interessante para o tema, o que não mascara todo o poderio vocal do frontman.
Logo na sequência: Riding on the Wind. Com uma introdução muito bem pegada de Dave Holland seguida pelo vocal rasgante do mestre Halford, essa música segue o mesmo padrão da anterior, com riffs rápidos e um ‘duelo’ de solos entre KK Downing e Glenn Tipton. Incrivelmente, os dois solos parecem um só, tamanha a sincronia entre os dois mestres das 6 cordas. É música pra fazer a plateia gritar.
Bloodstone é a quarta faixa do disco e talvez a mais cadenciada, embora tenha um andamento rápido. Dave Holland dá a textura da música com um groove importado do rock and roll mais trabalhado e Halford mantém o nível até o fim. As guitarras dessa peça são interessantes e o solo é um tanto burocrático, mas com o padrão Judas Priest.
A próxima música é a única a não ser composta pela banda. (Take These) Chains foi escrita por Bob Halligan Jr, que também contribuiria com ‘Some Heads are gonna Roll’, do álbum Defenders of the Earth. Essa faixa tem uma pegada flertando com hard rock, tendo na intro guitarras com chorus e um ritmo mais tranquilo. Halford é o destaque dessa peça, pois trabalha bem a sua voz durante os 3:07 minutos de execução. (Take These) Chains poderia figurar tranquilamente em qualquer coletânea de Love Metal.
Pain and Pleasure é uma peça pragmática, arrisco dizer clichê. Nela, fica evidente a levada hard rock adotada pelo Priest. Vocal sempre de alto nível, guitarras bem sincronizadas nenhuma ressalva. Boa música.
Holofotes para a faixa-título. Rob Halford abre os trabalhos da matadora Screaming for Vengeance. É difícil não bater o pé ou chacoalhar a cabeça ao ouvir a levada de Dave Holland combinada com a pegada animal da dupla Downing/Tipton. O refrão é excelente e mostra um Halford de bem com a voz. Menção honrosa para Ian Hill, que conduz a base junto com Holland de forma bastante agressiva. Solos arrepiantes. Disputa com Electric Eye o título de melhor música do álbum.
Após uma aula de heavy metal, um radio-hit. You’ve Got Another Train Coming é a prova de como uma banda com estilo agressivo pode criar algo comercial dentro de suas características. Glenn Tipton sabe muito bem o que faz com as suas 6 cordas. Excelente solo, apesar de curto. A sempre arrepiante voz de Rob credencia a música a receber o selo Judas Priest de qualidade. Holland, Downing e Hill mostram continuar muito bem entrosados. Até certo ponto, essa música lembra o Quiet Riot, banda contemporânea ao Priest e de igual qualidade.
Dando um descanso ao ouvinte, Fever é outra daquelas baladas que poderiam ser destaque em qualquer coletânea de Love Metal. Uma linha vocal menos incisiva, mas sem perder a presença. Destaque para o dueto entre Downing e Tipton no solo. É daquelas baladas que ficam na cabeça mesmo depois de bastante tempo.
Encerrando o disco, temos Devil Child. Na mesma linha hard rock mesclado com heavy metal, é burocrática, porém interessante. Parecida com Pleasure and Pain. Bons solos, linha vocal padrão, pouca coisa a acrescentar.
Por fim, Screaming for Vengeance é para quem curte ouvir o que há de mais puro no som do Judas Priest misturado com elementos em voga na época de gravação. Falou!



